Efeito Dunning-Kruger e Síndrome do Impostor: duas caras da mesma moeda ?

Já te questionaste porque há tantas pessoas cheias de si próprias quando facilmente consegues perceber que são um simples balão cheio de ar? Por outro lado, questionar porque existem tantas pessoas com receio de arriscar, de dar um passo em frente, sempre receosas de não terem as capacidades necessárias?

Na verdade eu já tive a minha quota parte dessas duas situações.

No início da minha carreira a arrogância levou-me a sobre-estimar as minhas capacidades. Essas acções originaram que um Project Manager fosse despedido. Ok, é verdade que o trabalho dele era prevenir que o projecto derrapasse e assegurar que tinha as pessoas certas para o trabalho. Mesmo assim, foi o meu mau julgamento que originou o resultado final. Não tenho qualquer orgulho disso mas felizmente aprendi uma valiosa lição.

Saltando 10 anos em frente ou algo desse género – não me consigo relembrar quanto tempo foi ao exacto, mas recordo bem o momento – tive uma grande oportunidade em mãos e deixei-a fugir porque senti que não tinha o que era necessário para ser bem sucedido.

Na minha busca de auto-consciência escolhi tomar o comprimido vermelho e aprendi sobre o efeito de Dunning-Kruger e também sobre o Síndrome do Impostor.

Mas deixa-me tentar explicá-los do meu ponto de vista.

Em 1999, David Dunning e Justin Kruger escreveram um artigo científico no Journal of Personality and Social Psychology com o título – “Unskilled and Unaware of it: How difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments” onde disseram que – “(…) Pessoas que têm menos conhecimento de um assunto em particular pensa que sabem mais do que os que estão devidamente informados (…)”.

Esta situação chama-se o efeito de Dunning-Kruger.

Dunning e Kruger disseram ainda que:

  • “Indivíduos incompetentes tendem a sobre-estimar o seu nível de capacidades.”
  • “Indivíduos incompetentes não reconhecem capacidades genuínas em outras pessoas.”
  • “Indivíduos incompetentes não reconhecem o quanto extremo é a sua incapacidade.”

Existe uma história sobre um tipo que assalta um banco em plena luz do dia, isso foi em 1995. Ele foi preso porque foi filmado pelas câmaras. Ele ficou incrédulo como é que isso aconteceu porque, tal como ele disse – “(…) eu utilizei o sumo” – uma referência ao sumo de limão utilizado no truque da escrita invisível.

Dunning e Kruger também escreveram:

  • Se conseguirem ser ensinados de forma a substancialmente melhorar as suas capacidades, esses indivíduos podem reconhecer e aceitar a sua anterior falta de capacidade.”

De volta à minha infeliz experiência passada, eu sobre-estimei as minhas capacidades e também falhei em reconhecer o quanto eu estava inadequado para o trabalho. No entanto eu conseguia reconhecer capacidades nos outros.

Uma coisa sempre tive, e continuo a ter, fome de conhecimento. Isso levou-me a procurar por pessoas a quem eu olhava como séniores nas capacidades que eu queria dominar. Enquanto estava a aprender as coisas que queria aprender, também me ensinaram, através de debates encorajantes, como poderia medir o meu progresso.

Acredito que, a receita para nos afastarmos do efeito Dunning-Kruger é:

  • Procura um verdadeiro sénior, um mentor;
  • Não fujas de nenhuma divergência, abraça os debates;
  • Mede o teu progresso, a performance da tua aprendizagem.

Ahh… então, só tenho de continuar a estudar, aprender, praticar e há hipóteses de evolução e de me manter afastado desse efeito.

Aqui estás tu, a aprender, a evoluir, a ser um grande profissional com o conhecimento de que o caminho está longe de estar terminado, que ainda tens toneladas de coisas para aprender e dominar. Entretanto não te apercebeste dos teus sucessos, da tua evolução. Afinal de contas, como é que podes ser capaz de te chamar um artesão no que fazes, se ainda estás a aprender, se ainda és uma “fraude” comparado com os mestres que veneras.

Bem vindo ao “Síndrome do Impostor“.

Eu perdi uma boa oportunidade por causa desse síndrome. Bem, pelo menos na altura pareceu-me uma boa oportunidade.

Se olharmos para esse gráfico, é tudo uma questão de confiança – ou falta dela. De facto, alguém que sofra do Síndrome do Impostor pensa que sabe muito pouco comparado com o que os outros sabem.

Recordo-me de ler alguns tweets da Alicia Liu sobre isso. Ela partilhou alguns pensamentos pessoais enquanto sofria desse síndrome.

  • “Eu não me encontrava nos detalhes isotéricos de várias linguagens de programação.”
  • “Eu não conseguia debater com fervor religioso sobre os pros e contras de duas tecnologias concorrentes.”
  • “Eu não tentava implementar, por diversão, algoritmos de artigos académicos.”
  • “E seguramente o prego no caixão, eu não vi um único episódio do Star Trek.” (eu adoro esta !!!)

Felizmente ela ultrapassou as suas dúvidas e actualmente é Head of Engineering na NavaPBC.

Uma vez mais, de volta à minha experiência pessoal. De facto perdi uma oportunidade no passado mas depois de aprender sobre este síndrome, fiz algum trabalho de desenvolvimento pessoal e comecei, de novo, a arriscar. Coisas que aprendi:

  • Reconhece a velocidade com que a tecnologia muda;
  • Reconhece que programar consiste em constantes quase-falhanços;
  • Aceita o feedback positivo e não atribuas o teu sucesso à sorte;
  • Mantem um registo com os teus sucessos e os teus fracassos;
  • Abraça a humildade e aceita tanto os sucessos como os fracassos;
  • Expõe-te totalmente;
  • Continua à procura de mentores.

Actualmente sou Head of Engineering no Grupo RUPEAL, tenho duas incríveis equipas de engenheiros a trabalhar em dois produtos, um SaaS de facturação (InvoiceXpress) e um SaaS de gestão de ausências (ClanHR). De vez em quando ainda sinto dúvidas das minhas capacidades. Nesses momentos tento parar, não entrar em pânico, pensar em toda a evolução que fiz na vida, o que aprendi com os meus sucessos e falhanços e, se o sentimento for mais forte que esse exercício, procuro pelo meu chefe ou um dos meus mentores e falamos um pouco. Eles usualmente lançam perguntas poderosas que me orientam para longe desse sentimento.

Lembra-te, é realmente importante ter alguém que te apoie com algumas questões poderosas porque tu tens todas as respostas em ti !

E continua a perceber que o que tu sabes, os outros não sabem. Os outros terão outros conhecimentos, outras experiências, outros pontos de vista. Tu tens os teus !!!

“Why oh why didn’t I take the blue pill?”

Tal como o personagem Cypher do filme Matrix, deves estar a pensar “afinal, ignorância é uma benção”.

A verdade não poderia estar mais afastada.

Verdade, o caminho para o auto-conhecimento, pelo menos pela minha experiência pessoal, no início foi dura, com algumas dores e feridas para curar. Mas tomar conhecimento das tuas falhas é a chave para o progresso.

Eu acredito fortemente que nós estamos, aqui, nesta nave espacial feita de rocha para um propósito maior. Não tenhas medo de iniciar a tua viagem para a auto-consciência. Abraça todas as pedrinhas que te apareçam no caminho, todas as feridas, e continua a caminhar em frente. Tu vais prosperar e chegar ao outro lado uma versão melhorada de ti próprio.

What are you waiting for to take the red pill ??

 

 

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