O meu primeiro “Ask Me Anything” (parte 5)

Aqui está, a última parte desta sessão AMA, a minha primeira de sempre. Só recebi cinco questões mas, honestamente, não esperava tantas. Foi um verdadeiro prazer e sinto-me grato a quem gastou algum do seu tempo a pensar nas questões e, claro, a quem tem seguido esta sessão AMA. As outras partes podem ser encontradas aqui: a primeira, a segunda, a terceira e a quarta questão. Agora, vamos lá responder à última:

O Ivan escreveu um longo texto com várias questões. Irei tentar digerir em pedaços mais pequenos.

Tenho uma empresa há 11 anos.
Nestes 11 anos tenho feito tudo o que há para fazer em termos de gestão e operações de uma empresa. Comecei como Web Developer, entrevistei centenas de pessoas e contratei 60 ao longo destes anos, escrevi os rascunhos dos contractos, lavei o chão do escritório, montei e desmontei móveis, organizei papelada para a contabilidade, fiz cobranças, criei e geri campanhas de marketing digital, entre outras coisas, uma agência digital que cresceu e também já declinou devido a más contratações e a maus clientes (porque em Portugal reina a cultura de não pagar ou de pagar o mais tarde possível). Sinto que o meu papel no mercado de trabalho é pouco mais que um “office manager” ou algo que tenho feito com maior regularidade nos últimos anos, “business developer”, vendas, e gestão projectos. Não procuro trabalho nem penso fechar a minha empresa, mas gostaria de saber qual é o meu valor no mercado de trabalho.

Ivan Criner da Cunha (General Manager at Curiosidade Agency)

Eu conheço o Ivan. Já falámos cara a cara algumas vezes, maioritariamente sobre tecnologia, mas também já falámos mais vezes via chat sobre questões mais pessoais. Na verdade, eu acredito que ele usa e vive o chapéu de empreendedor (por falar em chapéus, Rui Alves tem um bom video sobre isso). Ser um empreendedor tem uma grande fatia de risco e nas fases iniciais do processo exige que se seja o “faz tudo” na empresa. Acredito mesmo que faz parte do jogo. Meu, alguém que anda a fazer isso por mais de uma década já deve de ter adquirido conhecimento sobre empreendedorismo, negócio, marketing, vendas e muito mais … isso é o teu maior activo, independentemente dos desfechos que alcançaste no passado – lembra-te, tu vences ou tu aprendes !!

Tenho falado com recrutadores de várias empresas, sejam de staffing ou directamente de agências digitais, ou mesmo de outras áreas.
Todos me disseram o mesmo, que não tenho nenhuma competência em particular para uma posição em específico e que por isso tenho de me especializar…
Só sou contratado para comercial, que não é algo que eu queira fazer de profissão, apesar de o fazer “bem” (só o faço por necessidade por estar à frente da empresa).
Assim, a minha questão é, como ser um “faz tudo” e manter relevância profissional
? Eu já tomei acção … deleguei algumas responsabilidades e recomecei a programar! Mas gradualmente começo a sentir que estou a negligenciar certos aspectos da empresa (como esperado) e a não aproveitar oportunidades que vou vendo!

Ivan Criner da Cunha (General Manager na Agência Curiosidade)

Recruitadores, se eles só fizerem outsourcing então estarão, provavelmente, à procura de alguém com características muito específicas para encaixar em alguma necessidade de um cliente.

Tu disseste que eras um comercial competente, um bom “business developer”.

Provavelmente alguém com a experiência de vida que já levas, deverias de almejar posições de maior destaque, ou posições relacionadas com gestão. E aí, estarás no playground dos “headhunters”, recrutadores que trabalham para colocar alguém “permanentemente”.

Mas parece-me que estás a ver isso como o fim da linha, caso tomes essa aproximação.

Por exemplo, toma o exemplo da KWAN, a unidade de negócio de “staffing” do Grupo RUPEAL. Dependendo do que tu andares à procura, o teu “background” e a tua experiência, eles irão tentar encontrar as melhores opções para te proporem. Isso quer dizer que poderá ser uma posição “permanente”, se for puro “headhunting”, ou “outsourcing” se quiseres maior flexibilidade para saltar de projecto em projecto, ou até mesmo algum projecto “nearshore” se quiseres trabalhar para fora de Portugal ou mesmo até ires trabalhar uns tempos no estrangeiro.

Regressares à área técnica também não me parece que seja um problema, com tempo voltarás a agarrar a coisa. Será uma questão de tempo e paciência.

Apesar disso, sinto que estás a disparar para todo o lado com a esperança de atingires um alvo, qualquer que seja, ou pior, depois de acertares em algo, então ires desenhar o alvo.

Permite-me perguntar qual é o teu “porquê” ?

Porque é que trabalhas?

Porque gostas de fazer _____ ? (preenche o espaço vazio com as tarefas que mais prazer te dão)

Alguns anos atrás, também eu andei perdido. Eu não sentia qualquer prazer a trabalhar para outros, tentei ser empreendedor e a experiência foi, deixa-me dizer só, péssima. Senti-me tão perdido que cheguei a considerar transformar algum dos meus hobbies em trabalho real. Nunca parei para pensar que isso talvez fosse retirar toda a diversão que o hobby me traz, quero dizer, um hobby é um hobby, tarefas que podes realizar de “coração leve”, sem qualquer pressão adicional. Na realidade eu cheguei a tentar e sim, perdi o prazer nesses hobbies que estava a tentar transformar em trabalho. Senti-me completamente perdido. Ao mesmo tempo comecei a ter algumas sessões de coaching com a Joana Araújo Lopes, uma psicóloga e coach amiga da minha mulher.

Wow, foram momentos reveladores para mim.

Aprendi que por vezes necessitamos de parar, dar um passo atrás, reagrupar, pensar em todas as aprendizagens e voltar a tentar. Comecei a trabalhar no meu “Porquê”. Não quero dizer que o encontrei num período útil de tempo, longe disso. Levei quase 4 anos de trabalho e procura interna, enquanto trabalhava num trabalho de tempo completo que não era exigente, não tinha qualquer desafio e nem me fazia sentir útil. Mas continuei a forçar a procura do meu “Porquê”. Acredita, quando digo que, essas aprendizagens fizeram toda a diferença para aguentar a procura enquanto o tempo passava pela minha frente.

Aprendi duas lições que considerei importantes, primeiro que considero que é mesmo fundamental se iniciar o processo de procura interna do “Porquê”, segundo que nada é definitivo. Qualquer decisão que se tome enquanto se está na demanda do “Porquê”, qualquer que seja essa decisão, será sempre temporária. Poderá levar um mês, um ano, metade da tua vida, mas esse fogo que arde bem fundo no teu coração continuará a arder, enquanto espera pelo próximo “round”. Pah, tu és um empreendedor !!

Continua a forçar, não desistas e tenta apontar para a tua visão, qualquer visão, mas que seja um único alvo.

2 comentários em “O meu primeiro “Ask Me Anything” (parte 5)”

  1. Gostei de ler e parabéns ao Ricardo por ter criado este espaço. Não posso deixar por me identificar com o Ivan pois apesar das realidades serem um pouco diferentes aqui na Holanda os problemas são semelhantes. Para aqueles, como eu, que passaram os últimos 20 anos a criar, gerir, desenvolver, desenhar, vender e promover, as oportunidades de hoje no mercado de trabalho são raras. Existe um nome para nós: Generalistas! Não somos especializados em uma disciplina mas em várias. Somos mais experientes, mais velhotes e muitos de nós casados e com filhos. Somos também mais caros! Cumprimentos a todos. Carlos

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *